Você já imaginou como seria tratar transtornos mentais com suplementos de amido de batata? Já parou para pensar na possibilidade de um transplante, não de um órgão mas de fezes, para melhorar sintomas gastrointestinais e comportamentais de seus pacientes? Pois é, que coisa esquisita não é mesmo? Mas esse é um tema que cada vez mais vem sendo abordado na literatura médica. Atualmente estou trabalhando com pesquisa na área de transtornos psiquiátricos e um dos temas que estou pesquisando tem relação com esquizofrenia e micro organismos.

Essa relação entre o ser humano e os micro organismos é um tema muito atual e possui grandes implicações para a medicina, então resolvi trazer um pouquinho sobre esse assunto para vocês.

Com o desenvolvimento de pesquisas sobre a interação entre o nosso organismo e o ambiente em que vivemos, surgiram grandes insights sobre como os micro organismos que habitam no nosso corpo podem influenciar os processos fisiológicos humanos. Eu iniciei com exemplos que envolvem a microbiota do trato gastrointestinal, mas na verdade existem correlações tanto terapêuticas quanto diagnósticas entre a caracterização da microbiota de diversos locais do corpo humano e processos fisiológicos e patológicos.

Pesquisas têm demonstrado que esses microorganismos, que compreendem desde bactérias até fungos e vírus, são capazes de influenciar processos humanos por ativação de vias do sistema imune, produção de metabólitos ativos absorvidos pelo nosso corpo e até mesmo pela clássica penetração destes seres no sistema circulatório humano.

Através de técnicas de análise genômica e pesquisas experimentais com transferência de microbiota e até mesmo suplementação dietética com nutrientes que favoreçam populações específicas de micro organismos, podemos aumentar nossa compreensão sobre a complexa interação entre o ser humano e os micro organismos e o que encontramos até agora indica um grande universo de possibilidades para explicar desde efeitos colaterais de tratamentos já consolidados até mecanismos fisiopatológicos de doenças como esquizofrenia e depressão.

Esse tema tem uma importância peculiar para a nossa prática assistencial, porque não são só os antibióticos que interferem no crescimento dos micro organismos. Diversos fármacos possuem propriedades em níveis variados sobre o crescimento e desenvolvimento de micro organismos e podem ser grandes moduladores da microbiota humana, principalmente no contexto de tratamentos crônicos. E isso também se soma ao grande interesse do mundo atual em alteração de dieta e hábitos de vida para tratamento e prevenção de doenças, que são estratégias que também possuem uma grande correlação com a composição da microbiota.

Nós somos protagonistas da aplicação da ciência, e como eu já disse em outros momentos, temos a oportunidade ímpar de observar o efeito de nossas intervenções nos pacientes que atendemos. Por isso, hoje te faço um convite: Esteja atento ao seu paciente. Será que você consegue perceber como essas novas descobertas sobre a influência dos micro organismos afetam o tratamento do seu paciente? Já pensou na possibilidade de contribuir um pouco mais com a construção da ciência pela observação minuciosa do seu próprio trabalho?

Eu trouxe apenas um apanhado de novidades sobre o tema de hoje e esse assunto tem muitos outros desdobramentos, mas escolhi falar disso porque se trata de um tema contemporâneo e ilustra o quanto aspectos pouco valorizados do cotidiano médico, como são as bactérias que habitam as fezes dos pacientes, podem resultar em grandes desdobramentos e explicar partes importantes do nosso paradigma atual. E, é claro, porque você pode ajudar nessa jornada do conhecimento, basta estar preparado para enxergar e não desistir de suas ideias.

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Thiago Cordeiro
Sócio fundador da empresa MedBeta. Graduando de medicina da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG; Realizou pesquisas nas áreas de medicina molecular, nefrologia pediátrica, imunologia, neuroimunologia e psiquiatria. Frequenta o Laboratório Interdisciplinar de Investigação Médica (LIIM) na FM-UFMG desde 2014. Atualmente, realiza pesquisa nas áreas de traumatismo crânio-encefálico, transtornos psiquiátricos, neuroimunologia, inflamação e hipnose. Autor do best seller "Suturas", editora Coopmed. Hipnoterapeuta, atuando em contexto ambulatorial e hospitalar, e Master Practitioner em Programação Neurolinguística - PNL.

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