Hoje vou iniciar a nossa conversa de uma forma um pouco diferente do que tenho feito nos últimos episódios desta série. Eu imagino que a grande maioria de vocês já tenha visto, ou até mesmo prescrito para seus pacientes, um medicamento para tratamento de hipertensão chamado captopril, que é um fármaco que age no sistema renina-angiotensina-aldosterona, reduzindo a ação do eixo hipertensor desse sistema pela inibição da enzima conversora de angiotensina ou ECA.

Bom, eu também imagino que muitos de vocês já devam estar se perguntando: Por que o Thiago está falando de farmacologia no podcast? Bom, pessoal, eu estou falando especificamente sobre essa parte da farmacologia porque gostaria que vocês refletissem sobre o quanto é poderosa a nossa contribuição científica para o desenvolvimento da medicina e o quanto as repercussões de nossos esforços podem transcender nossas expectativas.

Em 1949 o mundo recebeu uma generosa e próspera contribuição científica de três brilhantes médicos pesquisadores brasileiros: Maurício Rocha e Silva, formado pela UFRJ, Wilson Teixeira Beraldo, formado pela UFMG e Gastão Rosenfeld, formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Estes três pesquisadores realizaram seus experimentos na faculdade de medicina da USP em Ribeirão Preto e descobriram a existência de uma substância, que vocês muito provavelmente já ouviram falar, chamada Bradicinina. Nossa, Thiago… Quer dizer que aquela bradicinina que eu estudei em fisiologia é uma descoberta brasileira? Sim! É uma molécula brasileira!

A partir de experimentos com veneno de jararaca, estes pesquisadores conseguiram isolar uma nova molécula com efeito hipotensor e contrário ao eixo hipertensor do sistema renina-angiotensina. Esta descoberta importantíssima abriu uma possibilidade excepcional: se o veneno da Jararaca é capaz de estimular a ação de moléculas hipotensoras, seria uma ótima opção para investigar possibilidades terapêuticas. E, foi exatamente isso que o médico pesquisador Sérgio Ferreira fez. Após se juntar com um grupo de pesquisa britânico, Sérgio introduziu ao grupo um extrato do veneno da Jararaca contendo uma substância chamada Fator Potenciador de Bradicinina que após o seguimento da pesquisa, foi demonstrado que era capaz de inibir a tal enzima conversora de angiotensina e resultou na criação do fármaco Captopril.

É, pessoal… Só até 2016 o veneno da Jararaca brasileira, nas mãos de pesquisadores britânicos, movimentou mais de 8 bilhões de dólares e revolucionou a forma como tratamos hipertensão arterial. Este caso foi alvo de muitas discussões sobre biopirataria e sobre o papel da pesquisa e da biodiversidade brasileira. Mas, hoje não vou me preocupar com essa discussão e gostaria de, ao invés disso, ressaltar o quanto precisamos estar atentos e conscientes sobre nossos esforços. A pesquisa sobre o veneno de uma serpente brasileira e seu envolvimento em modelos animais de fisiologia se desdobrou de maneira tão grande, que não só batizamos uma molécula importantíssima, que é a Bradicinina, como contribuímos para mudar o paradigma do tratamento de hipertensão no mundo todo.

Como eu já disse, não vou discutir os méritos da polêmica envolvida no caso, mas é inegável a quantidade de recursos e frutos que poderiam ser colhidos pelo Brasil nesta situação, caso os desdobramentos destas descobertas não tivessem se extendido aos pesquisadores estrangeiros. Nós somos parte de um país rico cheio de oportunidades, mas é nossa responsabilidade garantir que essas oportunidades sejam aproveitadas ao máximo.

Com certeza, parcerias internacionais e multicêntricas são de extrema importância para o desenvolvimento da pesquisa e a medicina no Brasil, mas espero que a reflexão de hoje sirva para nos lembrar de uma coisa: sejamos vigilantes e não deixemos de explorar o máximo potencial de nossas conquistas e de nós mesmos. Não esqueçamos da nossa história que por tantas vezes deveria nos inspirar pelo orgulho dos feitos que nos precederam, pelo orgulho de recebermos hoje o legado de excelentíssimos médicos e cientistas brasileiros, e pelas lições que ainda hoje podemos aprender com eles através de suas conquistas e derrotas.

Este foi o último episódio desta série sobre história da ciência médica no Brasil, mas…  como muitos ouvintes me procuraram para discutir os assuntos que abordei aqui, decidi deixar uma porta aberta. Se você tiver uma ideia e quiser escutar um pouco sobre alguma parte da história da ciência médica no Brasil, é só entrar em contato comigo e irei fazer o meu melhor para ajudar a propagar um pouco mais sobre as grandes conquistas desse nosso belo país.

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