No episódio de hoje, baterei um papo com o Márcio Granda que é Vice Presidente de Inovação e Tecnologia da Fundação HTML Coin, proprietário da corretora HTML Bunker e idealizador do Healthchain.

  • Oi, Márcio. Tudo bem?
  • Tudo bem, Yuri. Prazer estar aqui com vocês e obrigado pela oportunidade.
  • Então. Vamos começar a entrevista de hoje com uma pergunta básica: onde que você acha que a tecnologia do Blockchain vai impactar mais a área da saúde?
  • Bem. Quando a gente fala em Blockchain a gente “tá” falando basicamente em incorruptibilidade. Por que? Porque todos os dados que são registrados na Blockchain são incorruptíveis. Mas por que eles são incorruptíveis? Justamente devido à tecnologia que criptografa uma transação sequencial de um bloco pro outro, tornando impossível rebobinar àquilo, adulterar ou monitorar os dados. Então quando a gente vai falar, principalmente na área médica, em relação à segurança do paciente, a incorruptibilidade dos dados de um prontuário, a cadeia de produção de um medicamento, a rastreabilidade de uma vacina, tudo aquilo que a gente quer manter registrado de forma incorruptível, a gente vai adotar a criptografia das moedas e consequentemente vai precisar usar blockchain. A gente pode citar também um exemplo muito comum – isso não acontece tanto assim aqui no Brasil como já aconteceu no mundo afora- que é um atentado a uma pessoa pela edição do seu prontuário, supondo que essa pessoa é alérgica a determinada substância, e considerando que você é um hacker edita o prontuário. A pessoa dá entrada no hospital e já tem a sua ficha com dado adulterado e o médico vai lá e aplica uma substância proibida na pessoa, podendo falecer. Lógico que é um caso extremo, mas isso já ocorreu e quanto mais preservado o dado do paciente for, nesse sentido de ser imutável, melhor pra ele a melhor para o atendimento também. Tem algumas situações que envolvem aí a cadeia de produção, rastreabilidade de lotes de vacinas que você ver exatamente a origem de onde que veio, por qual ponto passou e onde que foi entregue; se não houve adulteração daquele lote no percurso. A blockchain é a solução para garantir essa segurança. A gente tem desenvolvido alguns projetos na área principalmente relacionados a questões de prontuário. Entre eles, a gente pode citar a heathchain que é um mecanismo de … antes de falar é preciso até ressaltar um pouco que o maior problema hoje dos prontuários médicos digitais é a falta de uniformização entre os hospitais e centros de tratamento. No geral, eles não conseguem criar um software comum para servir de padrão, embora já se tenha investido bastante nessa área. Então, pensando nisso, ao invés ja gente ser só mais uma startup ou uma empresa batalhando pra criar uma uniformização nisso, a gente criou o contrário, podendo cada um criar realmente conforme a necessidade. E esses prontuários foram feitos para serem utilizados em zonas de conflito, áreas de refugiados, locais de guerra, pela cruz vermelha, pelos médicos sem fronteiras; situações em que muitas vezes o médico não vai ter ali a infraestrutura disponível do hospital pra aquilo. Precisa registrar o nascimento, uma operação, uma intervenção em que ele fez naquela região em alguma pessoa e ele pode simplesmente arrastar os campos que ele precisa, montar o seu prontuário ali no aplicativo de celular e gravar aqueles dados na blockchain. O georreferenciamento ajuda a comprovar que o atendimento foi prestado naquela latitude e longitude, ou seja, o médico esteve realmente naquele local. Tem uma questão que é muito interessante também que é dos refugiados. Muitas vezes, eles estão temporariamente em uma região e estão indo pra outro país, tendo que receber uma identidade nova e podendo arquivar os documentos anteriores na blockchain pra autentificar que aquela pessoa é aquela pessoa realmente. Afinal de contas, ela tá ganhando uma vida nova em outro país, tendo que ter um registro mais apurado dessa situação. E o médico ou profissional envolvido nessa hora vai poder fazer inclusive o registro de nascimento de uma criança na blockchain, ou seja, ela vai chegar com um novo documento no país que ela estiver mudando e provar que em determinado dia, tal hora, o médico x com número de x registrou aquela criança ou aquele atendimento.
  • Isso tudo já tá sendo colocado em prática hoje em dia?
  • A gente já realizou alguns pilotos, mas o software ainda tem que sofrer algumas evoluções até tá 100% pronto pra ir pro mercado. Ele não vai ser comercializado, ou seja, é um software gratuito e vai ser disponibilizado para essas entidades que estão nessa zona de conflito como eu mencionei anteriormente.
  • Muito importante ver essa importância social do blockchain salvando vidas, podendo facilitar a vida dessas pessoas que estão nessas áreas de conflito. Além dessas, quais outras aplicabilidades do blockchain você vê no dia a dia pra saúde?
  • Bom. Quando a gente fala em blockchain e criptomoedas as pessoas levam só pro lado de investimento. Quem tá acompanhando o bitcoin e vendo sua valorização e considera que blockchain tenha a ver só com fator investimento. Mas como a gente tá comentando aqui agora, tem a ver com prova. Então, tudo aquilo que for necessário registrar – dia, hora, local, data, hora- o que ocorreu de forma incorruptível a gente vai usar blockchain. Então, eu posso ter por exemplo, um registro de ponto dos funcionários no hospital e isso vai evitar que um profissional, por amizade com o departamento de RH, consiga editar seu ponto. Hoje é feito em cartão no banco de dados, que é facilmente manipulado, né!? Então, o hospital vai ter certeza absoluta de que aquele médico, aquele profissional, aquele enfermeiro, esteve ali realmente e isso pode ajustar até em questões judiciais, uma vez que os hospitais são muitas vezes envolvidos em situações de erro médico, ações na justiça de pacientes reclamando do atendimento. Além disso, tem controle de estoque que pode ser auditado, ou seja, sumiu determinado lote de vacina, sumiu determinado medicamento, o hospital com com suspeita de que alguém tá desviando recursos. Então, tanto na parte financeira, de prontuários, ponto, RH, você ter o registro de certificado de cursos e diplomas dos médicos, as faculdades também autenticarem isso na blockchain, o que leva à diminuição de fraude. E, só pra vocês terem uma ideia, para adulterar algo na cadeia do bitcoin seria preciso ligar todos os computadores do mundo inteiro em rede, como se todos estivessem trabalhando pra quebrar aquela chave, e duraria cerca de 140 anos.
  • O blockchain é seguro porque é descentralizado. Como que se dá essa descentralização? E se eu quiser fazer meu prontuário eletrônico, como é essa descentralização?
  • No caso, você não vai descentralizar o dado do paciente. Não vai correr risco de compartilhar informações com os nós. Então, explicando antes pro público, cada nó seria um ponto dessa rede processando as mesmas transações. Então, aquela informação foi processada por um nó, por outro e assim sucessivamente, todas da mesma forma. Se um nó edita aquela transação ele não é validado pelos demais. Então, precisa dessa unidade e uniformidade nas transações pra que aquilo seja validado como verdade. Então, se alguém tentar corromper um dado, acaba gerando uma divisão daquela rede e já é excluído dessa rede principal de nós, ou seja, pontos processando. Qualquer pessoa pode ter um ponto do bitcoin em casa e quanto mais nós uma rede tem, mais difícil fica de quebrar. Basicamente funciona dessa forma, você consegue através desses pontos de processamento garantir com que aquela informação seja processada da mesma forma por todos os nós envolvidos.

  • Certamente é uma transformação gigantesca que a gente tá vivenciando, né?
  • Sim. A blockchain atende quem gosta da verdade e quem gosta da imutabilidade. Muitas vezes, algumas empresas não são muito amigáveis a ela justamente porque seus processos são fraudulentos. Logo, uma empresa que não gosta de auditoria não é uma forte candidata a ter um sistema de blockchain implementado. A gente vai ver uma transformação muito grande nos órgãos públicos, na transparência dos políticos, nas prestações de conta, porque uma vez que aquilo é lançado não poderá mais ser adulterado. Então, tem, por exemplo, nota fiscal, fluxo de caixa, eleições, com vários países já implementando esse modelo.
  • Cabe a nós então esperar por essa mudança e aguardar as cenas dos próximos capítulos, né?
  • Exato. A gente já começou fazendo história nisso. Não é uma coisa tão recente assim, né. O bitcoin surgiu em 2008, mas foi de 2 anos pra cá que tem tido mais atenção do público. Mas é um caminho sem volta, realmente. Tudo agora vai ter que ser auditado principalmente os veículos autônomos, precisando da auditoria de um trajeto, uma entrega por drone, tendo que tá bem definida aquela coordenada.
  • Muito legal, Márcio. Aguardo ansiosamente para ver essa mudança no mundo com mais honestidade. Agradeço muito pela sua participação!
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Yuri Machado é médico, formado pela Faculdade de Medicina da UFMG, faz mestrado em neurociência pelo departamento de Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da UFMG. Yuri é um workaholic assumido. Ama trabalhar, criar novas coisas e enfrentar desafios. Atualmente é CEO da MedBeta, onde enfrenta seus maiores desafios e tem suas maiores alegrias. Seu sonho é transformar o mundo através da educação. Ele acredita em uma educação participativa, em que o aluno é o principal protagonista de sua própria educação. Tem atuado ativamente em projetos inovadores na área da saúde! É diretor técnico da Saúde Ventures (a primeira Ventury Buider da área da saúde) e sócio fundador da ADDHERE, uma startup que visa melhorar o diagnóstico e o tratamento de crianças e adolescentes com TDAH. Mesmo com tanto trabalho, não abre mão de ser um bom marido pra sua esposa,Ingrid, e de ter tempo de qualidade com seus amigos e família. Ama viajar e conhecer novas culturas. Sua missão é impactar o mundo positivamente com suas ações, independente de onde ele estiver.

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