Era fevereiro de 1897, quando um jovem mineiro de 18 anos cheio de empolgação estava a caminho do Rio de Janeiro para iniciar seus estudos na tão sonhada faculdade de medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Carlos era um jovem singular, inteligente, e desde o ensino básico já demonstrava seu apreço pelas ciências naturais quando acompanhava seu professor do colégio jesuíta em visitas ao campo classificando animais e plantas. Sua mãe Íris desejava que fosse engenheiro de minas, mas Carlos tinha planos diferentes. Sofreu bastante influência de um tio médico e após fracassar nos exames vestibulares para a escola de engenharia decidiu que iria investir sua vida em uma carreira como médico.

Ao longo de seu curso na Faculdade de Medicina, Carlos Chagas demonstrou exímia habilidade tanto no campo das ciências básicas como na prática clínica. Tinha o apelido de Carlos o “duas velas “, pois passava tanto tempo estudando que uma vela não bastava para iluminar sua leitura ao longo de todo o seu estudo.

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Sofreu grande influência de nomes importantes para a medicina da época como Miguel Couto, Francisco Fajardo e seu grande mentor Oswaldo Cruz. A relação com Oswaldo Cruz teve seu início no fim do curso de medicina, em 1903, quando realizou o já extinto exame de doutoramento da época e defendeu sua tese sobre malária orientado por Oswaldo.

Após formar-se, Carlos foi convidado para trabalhar junto no mesmo instituto que Oswaldo Cruz e desempenhou diversas atividades, inclusive por indicação de seu orientador, tanto no contexto clínico como no âmbito de saúde pública, ajudando no controle de doenças infecto-contagiosas como a malária. Mas, foi em 1909 que surgiu uma oportunidade singular e que mudaria a vida de Carlos para sempre.

A Estrada de Ferro Central do Brasil iniciou um grande projeto de unir o norte ao sudeste brasileiro com uma ferrovia que conectaria Belém do Pará ao Rio de Janeiro. Porém, as obras estavam paralisadas devido à incidência de malária em uma região do sertão mineiro na altura do vilarejo de Lassance. Por indicação de Oswaldo Cruz, Carlos foi convidado a trabalhar para o controle da malária na região. Em Lassance, Carlos se deparou com diversos casos de pessoas que se queixavam de palpitações, além de diversos casos de insuficiência cardíaca e morte súbita. Até então tais sintomas destes pacientes eram atribuídos à Sífilis, que em estágios avançados acarreta em repercussões cardiovasculares. Mas ele não ficou convencido.

E se não fosse Sífilis? Afinal, a principal fonte de transmissão de Sífilis naquele vilarejo era através do contato sexual com a prostituição, muito comum entre os trabalhadores da estrada de ferro, mas, as apresentações do quadro clínico que tanto despertava a sua curiosidade pareciam se concentrar muito mais entre os moradores do vilarejo.

Ao longo de seu trabalho, ele classificava e descrevia mosquitos anofelinos e examinava amostras de sangue de animais em busca de parasitas, e inclusive detectou uma nova espécie de protozoário no sangue de um sagui. Em um certo dia, ainda tomado pelos questionamentos sobre os supostos quadros de sífilis, Carlos se deparou com um comentário de um engenheiro da estrada de ferro que se queixava da enorme quantidade de barbeiros no vilarejo, insetos que causavam muito incômodo e picavam as pessoas no rosto. Carlos então decidiu examinar o inseto e ao analisar o conteúdo do trato digestivo destes animais detectou o mesmo protozoário que havia encontrado no sangue do sagui, mas em outra etapa de seu ciclo de vida.Foi provavelmente neste momento que fez a pergunta:

Será que este protozoário poderia ser a causa dos sintomas?

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A partir desse momento Carlos não só reproduziu com a ajuda de Oswaldo Cruz o ciclo do barbeiro em primatas, mas também identificou o parasita no sangue humano pela primeira vez na pequena paciente de 9 meses, Berenice. Carlos Chagas concluiu um trabalho extraordinário do ponto de vista científico, identificando desde o agente causador de uma doença, o Trypanosoma cruzi, nomeado em homenagem a seu orientador Oswaldo Cruz, até o mecanismo de transmissão e os sintomas associados à doença, que recebeu seu nome: a Doença de Chagas.

Devemos aprender com a história de Chagas que podemos atrelar nossa prática ao pensamento científico e valorizar as oportunidades que se apresentam em nosso dia a dia para alcançar a grandeza. Lembrem-se que o pensamento científico transcende tubos de ensaio e bancadas de laboratório, é uma forma de pensar e se relacionar com o mundo.

Bom, por hoje é só pessoal! Que a luz do sucesso esteja sempre sobre vocês e até a próxima!

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Thiago Cordeiro
Sócio fundador da empresa MedBeta. Graduando de medicina da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG; Realizou pesquisas nas áreas de medicina molecular, nefrologia pediátrica, imunologia, neuroimunologia e psiquiatria. Frequenta o Laboratório Interdisciplinar de Investigação Médica (LIIM) na FM-UFMG desde 2014. Atualmente, realiza pesquisa nas áreas de traumatismo crânio-encefálico, transtornos psiquiátricos, neuroimunologia, inflamação e hipnose. Autor do best seller "Suturas", editora Coopmed. Hipnoterapeuta, atuando em contexto ambulatorial e hospitalar, e Master Practitioner em Programação Neurolinguística - PNL.

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