Hoje iremos para o nosso último episódio da série Interpretação de Estudos Científicos.

  • Professora. O que é uma revisão de literatura? Existem tipos diferentes?
  • “Revisão de literatura é algo que pretende se debruçar sobre determinado tema e explicá-lo de uma forma crítica, detalhada, em todos os seus aspectos, suas facetas e da forma mais criteriosa e científica possível. Os tipos diferentes da revisão de literatura seriam os seguintes : revisão narrativa, que se assemelha a um capítulo de livro, mas que deve ter o cuidado de ser a mais atualizada e baseada nas melhores evidências possíveis; e com uma estrutura similar a de um capítulo de livro. E teríamos, também, a revisão sistemática da literatura na qual se escolhe um determinado problema, uma determinada questão bastante específica e a partir disso busca-se achar os artigos que se debruçaram sobre ela, que trabalharam sobre essa questão. Então, a diferença é que a revisão sistemática tem um alvo muito específico, uma pergunta muito bem definida. Já a revisão narrativa da literatura é mais ampla. Por exemplo, eu posso fazer uma revisão narrativa sobre infecção urinária. Então eu vou falar de uma forma ampla, o que que é infecção urinária, como é feito o diagnóstico, quais os exames, enfim. Vou descrever de uma forma bastante ampla o tema, mas eu posso fazer uma revisão sistemática da literatura sobre uso de antibiótico profilático na infecção urinária em crianças. Ou seja, um tema bem focal, bem específico, onde eu quero saber se há evidências de ser benéfico ou não. Então, são formas diferentes de revisão e que usa metodologias diferentes também. Eu tenho que saber que tipo de estudo incluir, que tipo de estudo excluir. Como avaliar a qualidade do que foi incluído, quais as escalas que avaliam isso. Então, é necessário algum conhecimento metodológico adicional.”
  • Qualquer pessoa pode escrever uma revisão, seja ela sistemática ou narrativa?
  • “Sim. Qualquer pessoa pode escrever uma revisão. Mas ela tem de se atentar que ela precisa dominar bastante aquele assunto sobre o qual ela ta escrevendo a revisão. É muito difícil uma pessoa que não trabalha com determinado assunto ou que nunca se deparou com ele, escrever uma revisão consistente, que tenha dados importantes. Então, qualquer pessoa pode. Ou ela precisa de alguma orientação de alguém experiente sobre o tema, tanto na sistemática quanto na narrativa, e na sistemática ela precisa de algo mais: que domine a metodologia, sabendo os critérios.”
  • Professora, existe algum guideline para produção de revisão sistemática?
  • “Bem. existem alguns artigos, alguns capítulos de livro que tratam sobre isso. Então, existem sim guidelines, sites que podem registrar a sua revisão sistemática, no qual você coloca o tema, os critérios, a qualidade do que você está fazendo.”
  • E o que é uma meta-análise?
  • “Meta-análise é algo um pouco mais complexo que a revisão sistemática. Então, o que que acontece com a meta-análise? A gente tem um problema específico. Eu dei o exemplo do antibiótico profilático da infecção urinária. Aí eu vou achar os artigos e fazer minha revisão sistemática. Quando finaliza esse passo, eu tenho um volume grande de dados e informação que pode permitir que eu faça uma análise reunindo aqueles estudos todos como se fosse um grande estudo. Se aqueles estudos estiverem um certo grau de similaridade entre eles, posso reunir todos os grupos experimentais daqueles estudos e ter como se fosse um grande estudo, um tamanho amostral enorme que reanalisa os dados de todos os estudos tomados em conjunto. Assim, terei uma conclusão extremamente robusta. Que dizer, ao invés de eu ter a conclusão com 100 indivíduos eu passo a ter a conclusão baseado em 20 estudos que incluíram 20 mil indivíduos ao total. Quer dizer, a minha conclusão vai ter um peso muito maior do ponto de vista de grau de evidência para literatura científica. Agora, a meta-análise demanda de ferramentas de estatística avançadas tanto para que eu classifique aqueles artigos em termos de grau de semelhança. Quer dizer, eu vejo que eles têm uma similaridade que permite reuní-los. E também para fazer a análise reunida de todos esses artigos. Existem programas estatísticos para isso e precisa de um suporte, de uma assessoria de alguém experiente em meta-análise”.
  • E qual seria seu principal conselho para alguém que quer escrever uma revisão sistemática ou uma revisão narrativa para os alunos que têm interesse em participar do processo de iniciação científica e querem iniciar por essa via?
  • “Para começar, eu considero que o caminho mais fácil seja a revisão narrativa. Sem dúvida, é uma revisão mais simples que a revisão sistemática. Nesse caso, o que o aluno interessado pode fazer é procurar algum professor que trabalhe na área que ele tem interesse. Começar a ler, fazer busca de literatura, pegar material que essa pessoa também já produziu e junto com esse professor estruturar uma revisão e como seria para aquele tema, ou seja, qual aspecto daquele tema que merece ser revisado, o que que carece na literatura de entendimento. Depois que ele pega essa experiência aí sim vale a pena participar de uma revisão sistemática. Mas também acho que vale a pena ele ser tutorado e orientado por uma pessoa mais experiente.”
  • Muito obrigado, professora!

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